Já é tarde e por isso ainda estou aqui

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As tardes continuam belas, independente do lugar onde ela está. O céu está azul, as árvores balançam seus galhos, as folhas brilham refletindo o sol, o vento faz com que o tempo corra mais devagar, ela fecha os olhos, como se precisasse refletir sobre tudo, mas na verdade, só quer sentir. Sabe que vai acabar, e como se o mundo conspirasse ao seu favor, sabe também que será o momento mais lindo de todos, quando o contraste mais tênue cria a beleza mais complementar. Apogeu. Recolhe-se e sonha com o amanhã.

Somos fissurados pelo encanto do fim que a tudo completa.

Mas e quando o fim não se repetir amanhã?

Arthur Marques

Relatório Planetário

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O deserto vermelho contrastava com o céu azul embora não possa nunca separá-los em minha mente… A solidão em que me afundo aqui faz com que epifanias e angústias comecem a guerrear com mais vigor em minha imaginação… Os rochedos e cânions que aparecem com suas tão distintas formas não conseguem se destacar na paisagem trazendo a sensação de mais do mesmo… A fumaça de meu pouso distante é a única lembrança que trago do passado… Meus lábios estão secos

 É difícil a arte de observar os detalhes sem preencher a cabeça de vácuo.

Mais difícil ainda é observar o artista.

Arthur Marques

Choque

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Inerte diante da revelação que havia pairado sobre seus olhos: estava destinado a correr atrás da escolha mais difícil, não havia percebido antes, mas era o que fazia desde que se entendia por gente, o caminho com mais pedras, a decisão mais improvável, o traço mais completo, a simplicidade mais sutil. O que importava não era o tesouro perdido, mas as armadilhas que encontrava no caminho. Essas são o verdadeiro tesouro, o prazer está nas cicatrizes que ficarão com ele por toda a eternidade. “Porra”.

O que fazer quando o natural é não dar ouvidos a sua natureza?

Qual a decisão mais natural a se fazer?

Arthur Marques

Queda

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Calor, não existia outra sensação, não estava confuso nem assustado, não estava calmo também, só havia calor. A temperatura sobe cada vez mais enquanto a pequena nave vermelha e branca treme ao atravessar a barreira delimitante do que é vazio absoluto e do tudo a sua frente. Dor, voraz ao alcançar o solo arenoso bruscamente, mas passou rápido, tudo passou rápido, inclusive o estado normal de sua consciência, desmaia. Em sua mente, divagações ainda giram em torno do que havia se tornado, sonhava em ser um aventureiro, um contemplador da sensação primordial, no presente, caído em um deserto desconhecido, questionava-se quanto a validade de suas observações cósmicas, agora que estava em terra firme…

Martelar em sua cabeça as regras do apogeu espacial o fará sair do planeta empoeirado?

Que tal acordar e ver o que está a sua volta?

Arthur Marques

Gole

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O clima ameno entrava junto com a luz pelas janelas abertas, eram seis horas da manhã e tudo já estava ensolarado. Olhava para uma das janelas da sala enquanto enchia um copo com água na cozinha, era esperto o suficiente para saber até quando apertar, o filtro. O céu, completamente azul claro, cor de céu mesmo, fez com que ele se lembrasse, em uma associação questionável, que faziam dois dias que não olhava o telefone, toda a ansiedade se dissipava em sua cabeça enquanto olhava para aquele céu cor-de-céu. Sorri. A água que transborda do copo cai em seus pés, “está na hora de parar de apertar”, reflete gargalhando, toma tudo em um único gole.

Não  se apegue a  analogias, meias molhadas podem ser trocadas…

Sabe… eu durmo descalço.

Arthur Marques

Tudo vai dar certo.

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Tudo é tão superficial e você ainda solta um sorriso autêntico, “eu gosto desses detalhes simples “. Mentira. O sorriso não é por ela, é pelo movimento, pela angústia, pela agitação. Tudo estava tranquilo demais e o seu sangue fervia por isso, faltava porrada na cara, faltava socar as paredes, faltava aquela velha dor nas costas, afinal, você não toma mais café, não toma mais cerveja, não toma vergonha na cara para assumir que  está atrás de alguém porque sente a necessidade de não se sentir ajudado, não se sentir protegido, está aqui porque sente que alguém pode precisar mais de você do que você mesmo precisaria, tudo vai dar errado, pois o seu Eu não passa de um banal e desconhecido Você.

 Eu tenho pena de você .

Nada pessoal, é só uma questão de ego.

Arthur Marques 

Errata

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Os cenários passavam pela janela do carro de forma tão rápida quanto seu pensamento, estava acuada, sentia-se cercada por uma situação que não entendia, sentia-se culpada o suficiente para querer esquecer aquilo, só fugir mais uma vez para um lugar aonde seus treinados olhos pudessem se deleitar por uma beleza já perdida pelo mundo em seu total. A tarde parecia não passar como a estática sensação de ter dado tudo errado, estava acuado, “o velho clichê da situação que desmorona em seu auge”, sussurrava pra si mesmo com uma tamanha vontade de socar a parede, sentia-se culpado o suficiente para fechar os olhos treinados e apenas abstrair toda a feiura que agora parecia se espalhar pelo recinto.

Ele não fez por mal, mas fez mal feito  e por isso fez a ela um imenso mal.  

A intenção adiantou de algo?  

Arthur Marques

O Cosmonauta

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Vácuo. Flutuava entre supernovas, admirando cada explosão silenciosa com agonia como se todos os eventos do universos acontecessem sem parar ao seu redor, repletos da necessidade de serem observados. Não conseguia piscar. A sua nave? Ficara a anos luz de distância, presa ao maço de tudo o que é efêmero e material, sobrou só o cosmos eterno que o envolve em completa solidão.  A partir dali, tudo de fantástico brilhava exatamente como uma das incontáveis estrelas a sua volta, “fantástico e comum”, pensava enquanto imaginava qual orquestra tocaria aquela composição preferida que ele sempre colocava na vitrola para acompanhar a vida. A vitrola, a orquestra, a vida, a composição? Qual era a música mesmo? Não conseguia se lembrar. 

É possível esquecer que estamos vivendo? Você ainda se lembra de todas as suas… lembranças?

E se sua vida se tornar só lembranças?

Arthur Marques

Crime

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Ajeita seu chapéu negro, pouco se importa com a lama que mela o sobretudo, também preto. Chove. Está correndo a três quarteirões, não sabe por que o sinistro homem de chapéu está atrás dele, nunca havia feito nada terrível o suficiente para, agora, ver sua vida ser caçada por um vulto como aquele. Cai. Rir pelo fato de saber que iria ocorrer, “um gordo desesperado junto com chuva é queda certa”, puxa a arma que estava no bolso do sobretudo, o brilho do cano quase ilumina seu rosto, ajeita o chapéu mais uma vez. Aponta. Assustado, tenta se proteger do tiro certo,  não quer morrer, não queria mais errar, queria uma única chance de agradar alguém nessa miserável vida, o vulto não poderia terminar com aquilo ali. Chora. Um sorriso sádico se forma em seu rosto. Mira. Se encolhe. Geme. Se prepara. Destrava. Silêncio… Onomatopéia.

Não é  o personagem, não é o crítico, quem coloca o ponto final é. O escritor

Arthur Marques

A Vítima

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Bobo, o rosto tão colado ao chão que não conseguia distinguir do que o piso era feito. “Será que é azulejo ou será que é cimento queimado?”, pensava, mas logo esse pensamento voou ao se lembrar do porquê de seu estado: um pequeno texto que em suas poucas linhas fez desabar toda as concepções do rapaz, nada mais natural do que encontrá-lo em posição fetal junto ao piso gelado. A indagação contida no texto? Nada que não já houvesse sido debatido filosoficamente centenas de vezes a algumas centenas de anos, “seria essa a pergunta da minha vida?”, “seria a resposta, o farol para meu destino?”, infelizmente ele não tinha tanto tempo. Decidiu, então, só viver.

Fico encantado em como as coisas pequenas tocam as pessoas.

Fico encantado em como as pessoas se deixam tocar por algo tão pequeno.

Não existe Davi sem Golias.

Arthur Marques