Incipio

Tags

, ,

A raposa corre e o lobo a persegue. É instintivo; não racional; sem objetivo concreto. Porém, o lobo para, se sustenta em suas pernas, limpa os galhos, as folhas e a neve da calça e dos sapatos, tira sua máscara e olha para o bosque ao seu redor. Começa a nevar e a raposa já parou de correr. Os olhos dos dois se penetram, visão que vai até a alma. O rapaz sorri ao olhar para trás, vendo a trilha de pelos que deixaram. A máscara cai no chão. Para de nevar e um poça se forma entre os dois corredores. Ele olha para o reflexo de seu rosto na água, havia encontrado o que fazia-o correr. Ela volta ao seu instinto e… foge.

Foram encontrados anjos de neve no bosque.

Daqueles que só podem ser feitos pela felicidade.

Arthur Marques

Polidez

Tags

, ,

Risos e mais risos, gargalhadas vorazes em uma frenética onda de loucura comunal, as crianças não conseguem parar de rir, enquanto os homens choram com a medíocre comédia que passa na TV. Os pequenos não sabem olhar o céu e prever a tempestade que levará suas casas e suas famílias, como o que acontece quando esses mesmos garotos inundam formigueiros com uma mangueira. Em suma, o resultado é o mesmo: ninguém consegue contar os cadáveres, nem mesmo os homens, que continuam a chorar até que por fim… secam.

As crianças ainda riem.

Chore por sua maturidade, “homem”!

Arthur Marques

{ }

Tags

, ,

Minhas esperanças. Minha imagem nos teus olhos. A essência que nos aproxima. Tuas lembranças. O céu está todo branco, como se não houvesse céu, só o nada que suga o calor que um dia essa cidade já sentiu, abro bem os olhos porque quero ver o orvalho nas árvores da praça e só. As pessoas que esbarram em mim. Eu, esbarrando nas pessoas. Caio, logo me levanto, não sinto a dor que o sangue que mela minhas mãos parece querer avisar, continuo sem sentir. A dor. Sorrio.

Qual seria a solução do nosso conjunto?

Matemática pura.

{Arthur Marques, ?}

Mina

Tags

, ,

Pálida, bate a porta com força ao sair, o tango na vitrola se mistura a batida de seus passos pesados, o que é um paradoxo diante de seu esbelto corpo. Fumo meu quarto cigarro do dia enquanto olho fixamente para o papel de parede mofado a minha frente. Volto ao Meu papel. Rabisco corpos em furioso movimento, rostos em passiva inércia, minha visão se embaça misturando tudo em um frenesi de grafite. O whisky acabou, acho que vou encher a garrafa com lágrimas, para dar uma utilidade ao recipiente. A umidade não faz bem ao carpete.

Perco a conta de quantos papéis já amassei. 

Mas há sempre uma folha em branco em algum lugar. 

Arthur Marques

Casa de Penhores

Tags

, ,

As sombras se espalhavam entre os inúmeros itens, de armas a anéis de noivado, formando uma imensa teia de sombra e luz. Um velho acende um cigarro, o fósforo ilumina a cena por segundos, logo depois a fumaça se espalha pelo lugar. Ali, no meio de outras velharias, penhorando a história das pessoas, era ali que ele se sentia real. Hora de fechar a loja. As portas se fecham e a as ruas cinzentas da cidade sugam tudo que aquele homem poderia representar, era só mais um corpo entre tantos outros, seus olhos indiferentes queriam afastar todos ao seu redor, ele já havia se acostumado a morrer….

Estás tão dividido em tantas partes…

Que já não significas nada.

Arthur Marques

Molecagem

Tags

, ,

Luzes alaranjadas mancham as calçadas de pedra, tocam um samba na praça, um moleque corre descalço entre as ruas do bairro, não consegue parar de sorrir, como se essa fosse a natureza do seu rosto. Ele corre porque não sabe o que fazer, quando isso bate ele nunca sabe o que fazer. Correr então parece uma ótima opção, quem sabe as coisas que enroscam o peito dele saiam com o suor? Quem sabe ele não estivesse doente?! Isso, doente! Com certeza ele está, afinal, não para de correr… não para de sorrir… ô moleque!

Para de correr, moleque safado! 

Para de sorrir, ô danado!  Sei não, visse. 

Arthur Marques

Canis Lupus

Tags

, ,

Neva e o lobo cinzento não sabe aonde está. Todas as árvores de troncos negros e retorcidos são tão absolutamente distintas e de um conjunto tão assustadoramente igual, que a cada passo que dava, mais perdido ficava. O lobo está confuso, se emaranha em laços tão profundos e viscerais, que sua própria existência se atrela a uma enferrujada armação de nuances. Violento, silencioso, imponente, marginal, cinza, eis o mundo a sua volta, animal! .

Em tempos cinzentos, vira lobo.

Assimila e seja assimilado.

Arthur Marques

Pelo menos acene uma última vez

Tags

, ,

A Deus, deixo tudo que criei pra ti, para quem nunca quis nos meus olhos enxergar, dou meu coração pra quem pegar, minhas ideias pra quem quer cair. Mas o Eu, meu bem, comigo vai ficar… Adeus. Vou continuar a observar todas as ilusões que um dia vangloriei, como covarde, à minha terra retornarei, pois, não consegui aos teus olhos encantar, só ao teu ouvido sussurrar a verdade que criei.

Poem-se fim a fábula, o irreal já se dissipa diante dos olhos.

Não se sabe qual será a próxima ilusão. 

Arthur Marques

Festa

Tags

, ,

As ruas estão lotadas de brinquedos. Enquanto todas as outras crianças queriam se divertir com o máximo de atrações possíveis, ela estava perdida, a procura de algo a mais, além de luzes e adrenalina, algo que a deixasse segura. Mas eram muitas pessoas, muitas luzes, muitos brinquedos (todos lotados). Decidiu vagar pra longe da festa, perambular pelos prédios antigos, olhar pras formas encantadas que as nuvens formavam no céu, decidiu ficar ali, sozinha, por um tempo…

Talvez quando a festa acabar e as luzes se apagarem…

Possa-se ver o que realmente vale a pena.

Arthur Marques

Evento

Tags

, ,

Deitado numa cama de hospital há um homem chorando. Ao olhar para o teto branco, se lembra que a dama que o esperava já irá chegar. Esperar. Sempre esperou algo da sua vida, uma oportunidade, um sonho, não queria mais esperar, queria ser ao menos uma vez o homem de ação, realizado e… feliz. O médico anda com dois diagnósticos na mão, um erro havia sido cometido e os dois haviam sido trocados. O primeiro pertencia a um jovem, diagnosticado com um tumor benigno, que havia morrido a dez minutos. Era câncer. O segundo pertencia a um senhor, diagnosticado com câncer, que estava no quarto do fim do corredor, é uma nova oportunidade. O médico abre a porta do quarto: a janela está aberta, o quarto está vazio. Corre. Deitado no chão há um homem sorrindo.

O passado não é definido pelo o que poderia acontecer.

É a lógica do tempo.

 Arthur Marques